quarta-feira, 18 de abril de 2012

Viva Patarra!

Decidimos postar o texto do honroso Observatório da Imprensa logo após a morte de Paulo Patarra, um dos grandes nomes da Revista Realidade sem o qual ela provavelmente não seria formada. Paulo faleceu em 2008 e o texto foi postado pelo jornalista Carlos Azevedo, em 22 de janeiro do ano da morte do jornalista:


Paulo Patarra (74 anos, nascido 21/10/1933) acaba de ir embora fisicamente, mas ele já havia se despedido há algum tempo, ferido por doenças e por um esquecimento injustificado. Quero ficar com a melhor imagem dele, jovial, saltitante peso leve em seus 45 quilos e não mais que 1 metro e 60 de altura. Pequeno, magro, ágil, ligeiro nos movimentos e rápido como um raio no pensamento. Um líder de sorriso acolhedor, que não intimidava ao liderar, sempre abrindo espaço para todas as opiniões, paternal com os mais jovens.

Comunista sem verdades absolutas, mas fiel à estratégia de conquistar espaços para os interesses das pessoas do povo. Tático de movimentos habilidosos e fulminantes, capaz de mirar objetivos aparentemente inalcançáveis, e consegui-los. Fumante de tempo integral, daqueles que têm os dedos marcados pela nicotina. Pai de três filhos lindos, que conheci bem pequenos no apartamento de Vila Buarque, ao lado da sua ex-mulher Judith.

(...)

Seu trabalho principal era no jornal Última Hora, de Samuel Wainer, jornal popular, à esquerda dos jornalões das classes dominantes e que apoiava o governo de João Goulart. Era chefe de uma seção que chamavam copyright, uma central de coordenação e edição que despachava matérias para as edições regionais do UH.

(...)

Honra e dignidade

Golpe de mestre, de samurai! Roberto foi o diretor da revista Realidade e Paulo Patarra o chefe de redação. Não faltava dinheiro. Paulo levou toda a equipe que planejara montar, desenvolveu sua linha editorial de grandes reportagens de temas de atualidade. Levou as histórias do povo para dentro do jornalismo, priorizou os assuntos mais candentes na área de costumes, destacou a mulher, a liberdade sexual, o feminismo, o divórcio (que ainda era proibido no país), o comportamento da juventude, a música popular quando surgiam Roberto Carlos e Chico Buarque.

Já que vivíamos sob uma ditadura militar, Patarra buscou tratar de forma indireta os assuntos políticos. Era um mestre na arte de ir testando os limites da censura, de avançar e recuar conforme a tensão. Realidade foi o maior sucesso editorial da imprensa escrita do nosso jornalismo, teve as maiores tiragens e ficou para a História como a melhor revista de todos os tempos no país.

Paulo Patarra, arquiteto de revistas, condutor de equipes, teve ainda outros sucessos, como a criação do projeto de Vejinha, que sai encartada na revista Veja. Também protagonizou projetos na televisão, deu aulas em escolas de jornalismo. Mas sua obra máxima foi Realidade. E só por isso ele já está entre os grandes na História do jornalismo brasileiro. Exemplo para as novas gerações, para todos aqueles que quiserem fazer jornalismo com honra e dignidade, a favor do progresso da sociedade.

Claro que morreu pobre. Mas ainda tinha alguma coisa para nos dar: doou seu corpo para a Ciência.

O texto na íntegra pode ser encontrado com um clique aqui.
A foto do início do post veio de um tumblr sensacional com várias fotos de propagandas antigas! Visite: http://memoriaviva.tumblr.com/! Nada mais justo.

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