quinta-feira, 26 de abril de 2012

Realidade: uma transformação


São Paulo era calmaria entre Fuscas e Gordinis. Na década de 60, a nova editora, Abril, chegava junto com as minissaias, formulando um novo jornalismo, tão importante quanto as pernas de fora no Brasil e se aproximava muito mais dos leitores que viam uma certa afinidade em relação a vida e a nova linguagem.

Realidade foi o título escolhido diante das possibilidades da nova publicação, inovadora. O Google, que hoje salva os jornalistas, era impensável diante das antigas ligações mediadas por telefonistas. Ainda assim,  nas reuniões de pauta íntimas e invejáveis, regadas a todos os drinks do momento na casa de alguém da equipe, com a ausência da pressa, dessa angustia dos prazos de hoje, houve uma revolução no que diz respeito ao impresso.

A revista trazia o leitor ao jornalista num convívio maior que qualquer mídia social é capaz de atingir. Pela primeira vez, o Brasil consumia uma publicação para um público abrangente, o que fez com que em quatro meses as vendas subissem de 250 mil exemplares para 450 mil. Num misto de vaidade, orgulho e ansiedade pela crítica, os jornalistas conferiam de perto cada lançamento. Hábito que a Abril até tentou repetir, sem êxito em outras publicações. Do que aquele grupo de jornalistasde no máximo 30 anos ouvia, saía parte das próximas edições. 

Nada modesta, a equipe da Realidade via o sucesso como retorno da óbvia qualidade. Mostrava um olhar diferente sobre o mundo e a vida através da nova proposta. A revista levava em conta os vários lados da pauta, a liberdade que começava - e precisava  transparecer. Intercalava a tese e a antítese. Não havia pretensão de mudar o mundo ou de desafiar governos, mas influenciou diretamente na quebra de tabus, na transformação do pensamento da época. A temática priorizava assuntos permanentes, cavados com profundidade, sem o tom urgente do jornalismo habitual. A publicação também fugia do padrão na direção de arte e na fotografia. 

Ainda que os salários da imprensa da época não fossem os mais empolgantes, aquele grupo de jornalistas era bem remunerado, eram novos e estavam em alta, trabalhando com uma certa liberdade de criação. Enquanto os antigos se rendiam a outras profissões, dava-se novos rumos ao jornalismo, rumos ousados. Na realidade, os jovens eram cada vez mais ativos naquele prédio da Abril. 

Com  assinaturas como as de Sergio de Souza, Paulo Henrique Amorim, Woyle Guimarães, José Hamilton Ribeiro e outros tantos, a revista chegava às bancas mensalmente. Havia na equipe uma afinidade de propósitos e interesses. Nas reuniões de pauta discutiam se mostrariam o quanto a liberdade tinha sido arrancada pelo regime ou se seguiriam uma linha mais leve, de materias de entretenimento bem escritas. Normalmente misturavam os estilos. Nem todos tinham clareza sobre organizações políticas clandestina. Havia um mistério envolta da miltância. Ainda assim, politizados ou não, possuiam o interesse pelo bom jornalismo, que fosse, de alguma maneira, capaz de influenciar a sociedade. Cada edição se tornava ainda mais abrangente. Política, Educação, Moda, Religião, Esportes e Cultura dialogavam na paginação, sem se perder. 
A censura, embora não fosse explícita, era tratada com cautela. A empresa defendia o livre mercado e portanto, não concordaria com uma visão socialista da equipe. Quanto ao governo, não seria de bom tom provocá-lo e correr o risco de perder algo que seguia tão bem. Assim as matérias eram bem boladas, com alfinetadas indiretas ao regime e raciocínios afinados. A capa se relacionava com o conteúdo e fugia do padrão da beleza feminina das revistas semanais.
A Realidade via como necessidade se livrar das fórmulas antigas e atingir o leitor de uma outra maneira, criava um senso crítico. Para isso, o nível de exigência, criado pela própria equipe era elevado. Os repórteres tinham necessidade de certa privacidade e pela primeira vez, escreviam as matérias de casa. Até a escolha de um título era um cuidado a mais. Existia uma ligação visual entre textos, imagens, layout - técnica que hoje se repete em qualquer publicação. Na hora do fechamento, sem computador, tudo era feito com as próprias mãos. Legenda, legendinhas, títulos. Muitas vezes, o texto fugia da cabeça do reporter, que era salvo por alguém da própria redação. Este escrevia de acordo com o que ouvia de quem foi pra rua. Era explícito o processo por "texto de" ou "reportagem de". Quando era texto, o jornalista que assinava era responsável pelo texto e pela apuração. Na publicidade só entravam empresas privadas, quase que anulando a presença das estatais. Ética que surgia num período em que era comum uma série de jornais chanteagearem o governo para obter lucros. A revista por sí só já era suficientemente rentável.

Sem dinheiro do governo ou citá-lo diretamente, Realidade alcançou uma credibilidade muito maior, mas também foi acusada de representar uma invasão estrangeira na imprensa nacional. Todo o material publicado repercutia muito. A temática que hoje pode pode até parecer clichê, era altamente contestadora, com imagens fantásticas e reais. A fase durou até 1968, tempo suficiente para que a linha editorial se tornasse um padrão, um tema de estudos que chega aos dias de hoje.



por Raisa Carlos de Andrade e Fernanda Azevêdo

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