terça-feira, 3 de abril de 2012

"Não consigo imaginar a 'Realidade' hoje": conversamos com Milton Temer

Nossa busca por fontes que fizeram parte da revista Realidade continua. Na última aula, conversamos com o jornalista Milton Temer, cassado pelo golpe militar de 64, sub-chefe da Editora Abril no Rio de Janeiro, na época em que a revista Realidade nasceu.

“Não consigo imaginar a ‘Realidade’ hoje”, foi com essa confissão que ele começou sua conversa conosco, nos alertando para o grande desafio que seria, reconstruir, de certa forma, uma edição especial da revista.

Segundo Milton, a revista era como o Globo Repórter e chegou a vender 600 mil exemplares. O sucesso de vendas pode ser explicado por algumas razões, entre elas: a falta da televisão e impossibilidade do rádio cobrir o potencial da TV, o óculo do repórter que contava uma bela história com vínculo racional e sentimental e, talvez, antes de tudo, a atmosfera que serpenteava o mundo com movimentos de combate às repressões. Logo depois, a ditadura que congelou a mídia brasileira.

A “Realidade” é cheia de curiosidades. Fotógrafos gastavam rolos de filme para complementar uma única matéria; jornalistas “podiam gastar à vera” com viagens e compra de recursos que encaminhassem a construção de reportagens; a redação dava trabalho e era muito diferente das atuais, era repleta de provocações, xingamentos e desafios ao vivo. Tudo isso fazia a revista ser única. “Os caras estavam fazendo aquilo pela primeira vez. Se estivessem separados, eles nunca conseguiriam fazer daquela forma”, disse Temer.

A verdade é que a Realidade, como produto de uma época, cedeu ao tempo. Conforme aprendemos com Temer, a “’Realidade’ passou a ser ‘o que é possível’”. “O mundo vivia uma realidade diferente. Pensava em liberdade, havia vários movimentos. A Realidade era um produto desse mundo de reflexão. A utopia estava no botequim”, contou. “Não tinha ninguém de direita na redação (...) não existe jornal isento (...) seres humanos têm opinião sobre tudo. Existe jornalismo honesto”.

Após algumas horas de conversa sobre a revista e o jornalismo de algumas décadas atrás em contraste com o panorama atual, desencadeamos várias pautas que já estão em produção. Assim que estivermos com o arquivo editado, postaremos a entrevista na íntegra para todos os curiosos com a esperança de que seja uma fonte histórica, que forneça um pouco de coragem em prol do jornalismo pensante. Fica combinado!


Por Estephano Sant' Anna

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