quinta-feira, 19 de abril de 2012

Educação nas Páginas da Realidade

No livro Realidade Re-Vista, José Carlos Marão e José Hamilton Ribeiro reproduzem algumas das melhores matérias da Revista Realidade. Antes de cada capítulo, que aborda um tema que era comum nas páginas da revista, os autores brindam seus leitores com uma pequena resenha sobre como aquele tema era tratado na publicação. Abaixo, segue a íntegra de uma dessas resenhas, a que trata das matérias referentes a educação na revista. O texto é do jornalista José Carlos Marão.

Crianças, Mestres: Um olhar no Futuro*



Realidade, em suas pautas, também se lembrou das crianças. Os jovens de todo o mundo, naquele tempo, procuravam formas de externar seus descontentamentos. Entravam para comunidades hippies, consumiam LSD ou aderiam a organizações socialistas para lutar por uma revolução que nem entendiam o que era. Quase todos acabavam no divã do psicanalista.

Para muitos, isso era consequencia de uma educação repressora: jovens reprimidos e infelizes procuravam válvulas de escape nem sempre as mais saudáveis. O debate sobre o assunto levantava, como possível causa, o ensino na pré-escola e nas escolas de primeiro grau. Citavam Freud, dizendo que as raízes do comportamento humano são lançadas nos primeiros anos de vida. Surgiam novas escolas, pelo mundo, com tendências que chegavam ao Brasil, como os métodos Montessori e Summerhill, do educador escocês A. S. Neill.

Realidade entrou nesse tema. A matéria de Carlos Azevedo e Norma Freire, na edição número de Realidade, deu um panorama completo do ensino fundamental no Brasil, discutindo a necessidade e a possibilidade da pré-escola no Brasil. Destacava uma experiência oficial – naqueles tempos o que hoje se cama de escola pública era chamada de escola oficial – no Colégio Experimental da Lapa. Azevedo e Norma contam que lá eram matriculadas crianças a partir dos três anos e meio, moradoras do próprio bairro e de todas as classes sociais. Mas as grandes experiências já eram feitas em escolas particulares: as duas escolas citadas na matéria já praticavam o método Monterssori – o Pequeno Príncipe e a Vera Cruz. Nas duas, as crianças “aprendiam fazendo”. O método mais polêmico, porém, era o de A. S. Neill, praticado na Inglaterra, na Escola Summerhill, nome que acabou sendo adotado para definir o próprio sistema de ensino.

Foi pra lá que Realidade enviou seu redator-chefe, Paulo Patarra. A matéria de Paulinho “Ninguém Manda nestas Crianças”, repercutiu até mais do que o livro de A. S. Neill, Liberdade sem medo, que já tinha sido editado no Brasil. O livro, de tiragem limitada, tinha chegado a um público mais especializado. A reportagem de Paulo Patarra, mostrando crianças totalmente livres, sem horários, sem rigidez disciplinar (e, apesar disso, com excelente aproveitamento escolar), atingiu uma grande camada da população, que reagiu ou escandalizada ou maravilhada. Está reproduzida nesse capítulo.

Paulo Patarra destacou algumas declarações de Neill, que chocaram (e ainda chocam) os mais conservadores: “Os pais e as escolas matam a liberdade, a iniciativa e a capacidade de criara das crianças. Eles dizem aos jovens como viver, o que pensar, no que acreditar, impondo um sem-número de tabus”. Realidade cumpria seu papel, levantado tudo o que poderia haver de novo ou revolucionário em educação. Eram tendências que só podiam ser absorvidas ou praticadas em determinadas faixas de renda ou informação.

Mas a revista não esquecia o mundo real, o que era feito naquela época. No Estado de São Paulo, pelo menos, havia escolas muito melhores que as de hoje em todos os níveis. A Secretaria de Educação dava atenção a todas as regiões e seguia tanto os parâmetros tradicionais, como permitia experiências com tendências renovadoras, como mostram duas matérias reproduzidas nesse capítulo.

A reportagem “Já Existe a Escola de Amanhã” mostra um colégio estadual, no interior, onde adolescentes já recebiam o que havia de mais evoluído para a época. Um modelo que acabou sendo seguido e aprimorado, mas somente por algumas escolas particulares. A matéria “Uma Aventura, a Professorinha”, reproduzia integralmente neste capítulo, mostra a dedicação de professores abnegados, que se esforçam para levar o ensino básico para as mais remotas regiões, onde o acesso era muito difícil e as comunicações inexistentes. Eles ganhavam pouco, mas os salários eram mais dignos que os de hoje. O Texto usou nomes fictícios para fatos e regiões reais: a ideia era homenagear todas as anônimas e heróicas professoras, com o exemplo da luta de uma delas.

*Originalmente publicado no livro Realidade Re-Vista, de José Carlos Marão e José Hamilton Ribeiro, nas páginas 330-332.

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