quinta-feira, 19 de abril de 2012

Depoimento: Audálio Dantas

Nascido no interior de Alagoas, em 8 de julho de 1929, que é conterrâneo de Graciliano Ramos a quem é fã.
Em 1954, iniciou a carreira como repórter da Folha da Manhã - hoje Folha de S.Paulo -, passando em seguida pelas redações das revistas O Cruzeiro, onde foi redator e chefe de reportagem; Quatro Rodas, nas funções de editor de turismo e redator-chefe; Realidade, como redator e editor; Manchete, como chefe de redação; e Nova, como editor.
Entre vários trabalhos importantes que realizou como jornalista e escritor, se destaca o "Quarto de despejo", da favelada Carolina Maria de Jesus, que compilou do diário que ela escreveu e em 1960 lançou como livro, que já foi traduzido por 13 idiomas. Hoje se destaca também no sindicalismo e na política.

 
CMJ: Como foi essa novidade da Realidade?
Dantas: Acho que nas duas publicações houve uma sublimação  do texto.  Teve até discussão sobre isso. Muita gente confundia, via o  jornalismo literário como literatice, o texto enfeitadinho... não era isso. O  texto não precisa ser enfeitado, o texto precisa ter consistência, atrair o leitor, ter a importância, informar e atraindo pela qualidade da narrativa. A revista Realidade que  foi um projeto novo, vitorioso, uma revista de texto, de reportagem e, mais ainda, uma revista de autor. Foi a primeira publicação no Brasil que dizia publicação de autor. O sujeito escrevia a matéria, a matéria era dele. E apareciam alguns que não eram jornalistas  por profissão, no caso do Jorge Andrade, que era teatrólogo, o Roberto Freire, que morreu recentemente, que era médico, psicanalista, e esses faziam textos que fugiam aos padrões completamente. Agora nós, que éramos jornalistas, eu falo,  estavam o José Hamilton Ribeiro, o Carlos Azevedo, repórteres que estão aí, continuam escrevendo, José Carlos  Marão, Narciso Kalili, vários outros grandes jornalistas, nós vínhamos da escola anterior, como A Folha etc e tal.

Na Realidade, grandes matérias se fizeram, algumas, no meu ponto de vista, partiram para o exagero da criatividade, digamos assim. Mas havia matérias que eram verdadeiras subversões dos padrões do jornalismo tradicional etc. Uma delas que eu fiz chama "Povo caranguejo", pode-se dizer um texto quase teatral porque eu fiz um contratempo entre os personagens principais, que eram os caçadores e os caçados, os caranguejos. Mas  isso era, sei lá,  uma invenção, como você vai saber do caranquejo? Eu digo, você pode supor e pode ser constatado que o caranguejo sofre uma agressão ao ser caçado e ele deve ter as suas formas de reação, como tem. Por exemplo, como se caça caranguejo no mangue? O pescador vai, os caranguejos fogem para os buracos, ele tampa os buracos, um, dois, três, quatro e vai em frente. E os caranguejos ficam presos.  E por que ele que ele pega o caranquejo?  O caranquejo ficou na tentativa de sair, nessa busca, é bravo para o caranguejo. É fácil você imaginar isso. E muitos conseguem sair um pouco mas quando ele volta, ele vai pegando  porque os caranguejos estão cansados, alguns estão quase morrendo, aí fica fácil pegar. Senão, os caranguejos ferram com a mão dele.  Muitos, apesar deles, têm as mãos grossas das ferroadas dos caranguejos.  Enfim, o que era  o texto? A certa altura, o texto dizia: “Homem -  faz isso, isso, aquilo. Caranguejo, isso, isso, aquilo”. É isso, acho que não há nenhuma invenção nisso.

CCMJ: Fale um pouco sobre as grandes reportagens da Realidade.
Dantas: Muitos grandes assuntos, matérias que se podem ser consideradas antológicas, que foram feitas pela revista, o grande momento foram as edições especiais. A edição Amazônia, que foi feita pelo Raimundo Pereira. A Amazônia foi descoberta para a maioria do país naquela matéria. A revista inteira voltada para a Amazônia, com todas as suas contradições, todas as suas maravilhas da natureza, a exploração, já o problema da destruição, tudo isso. Depois, outras matérias especiais, edições especiais, algumas delas eu fiz. Fui editor na edição Nordeste e depois foi quase que totalmente sobre o Vale do São Francisco.  Porque uma das coisas que se devem lembrar dessa questão toda é que esse tipo de jornalismo feito nos anos 60, principalmente, era um tipo de jornalismo de investimento na matéria.  Que não se faz mais hoje, uma edição dessas da Amazônia levou um contingente imenso de repórteres  para todos os pontos da região, assim como Nordeste, meia redação da Realidade foi para Recife, montamos uma redação no Recife. Essas coisas são impensáveis hoje, e significava um investimento muito grande, em dinheiro, não só de tempo dos repórteres e tal, mas dinheiro. A redação ficou em um andar inteiro em um hotel no Recife, e depois transporte para todo o Nordeste, todo esse tipo de  coisa. (...)

CCMJ:Como essas pautas eram elaboradas na revista? Havia uma reunião, cada um trazia a sua ideia?
Dantas: Eram ideias dos repórteres, dos autores. Independentemente disso, nessas reuniões de pauta, as ideias eram muito discutidas. Não sou do grupo inicial, mas o grupo inicial virou quase uma máfia, uma gangue, se reunia, ficava dois, três dias reunidos para discutir a pauta, (...), veio funcionar muito nas grandes entrevistas do Pasquim. Fui um dos entrevistados do Pasquim e fiquei espantado para ver como eles conseguiam fazer depois a matéria. Era uma cumplicidade muito grande, uma coisa muito boa mesmo. Da mesma maneira, se discutiam os textos. Tinham coisas assim, quando eu trouxe o texto do caranguejo, acho que foi Miltainho disse: “É uma puta de uma reportagem...”  Era muito assim. Mas, se o cara tivesse alguma observação, ele faria (...). Quem fazia parte da equipe original da Realidade? É difícil lembrar de todos os nomes, mas você pode, logo de cara, lembrar de José Hamilton Ribeiro,   Sérgio de Souza, Miltainho [Mylton Severiano], José Carlos  Marão, Narciso Kalili, acho que já estava Roberto Freire, o Frei Betto, que escrevia alguns textos mas não era empregado. Paulo Patarra, que foi praticamente o inventor dessa coisa, e que morreu recentemente,  era um grande inventor de revista (...). A Realidade terminou com 400 mil e tantos exemplares, uma tiragem grande. Aí, houve uma dissidência, como houve também no O  Cruzeiro, vários saíram. Primeiro essa equipe, depois, em 1974, eu digo: “não dá mais...”. O projeto original estava desaparecendo.Fizeram uma revista mais rapidinha, ligeirinha, que o José Hamilton chamou de Realeções ou de Selenidades, essa comparação com a revista Seleções, aquela coisa utilitária, meio boba. E fui um dos que saíram. Quem era um dos editores da revista, era um dos donos da editora, filho do dono, que era o Roberto Civita. E nessa relação, o Roberto Civita, de certa forma, ao exercer a força do dono, muitas vezes, ele perdeu e aceitou.

CCMJ: Como era pressão dos militares sobre a diretoria, principalmente depois do AI-5?
Dantas: A Realidade fez trabalhos antológicos e que, na ocasião, mesmo antes de 68,  antes do AI-5, já eram considerados muito ousados. Algumas edições foram apreendidas inteiramente, como foi o caso da edição Mulher. Uma cena de parto era considerada imoral etc e tal.  Agora, a revista buscava fazer os temas e trazer, revelar coisas. O Eurico Andrade fez matérias importantes sobre a fome no Nordeste, o regime tinha todo interesse em evitar. Havia, não se pode negar isso, a autocensura do autor, do repórter. Ao escrever, me surpreendi várias vezes. Mas você procurava um modo, em uma situação como aquela, é lícito você procurar  modos de dizer as coisas, de contar. Uma das matérias que fiz para  a Realidade, chamada “Mortalidade infantil no Nordeste”, contava que morria uma criança a cada segundo, tantas crianças a cada minuto, coisa desse tipo. Fui acompanhar situações da Zona da Mata de Pernambuco, a região mais fértil do Estado, onde acontecia maior índice de mortalidade infantil. O paradoxo está aí, depois, peguei um caso – essa foi a segunda capa que perdi da Realidade – em que uma criança estava morrendo em um bairro miserável do Recife. Chegamos na casa, eu e o Luigi Manprin, um magnífico fotógrafo. O pai era cobrador de ônibus, não estava, a mãe estava com a criança. Tentaram levar para o hospital, não conseguiram, a criança morreu. Vão fazer o sepultamento, ficava longe do cemitério, não tinham recursos. O pai pegou o caixãozinho e ele, sozinho, levou ao cemitério. Acompanhamos isso. Chegamos no cemitério, antes do sepultamento, ele destampa o caixão, e o fotógrafo disse: “Olha, segura um pouco o caixão”. Segurou, então, está a cena dramática, terrível, do pai segurando o filho morto naquele caixão. Era uma foto muito, mas muito boa. A redação queria a capa, mas nós perdemos a capa. Não entrou mesmo, não entrou nada. O caranguejo ainda entrou na abertura da matéria lá dentro, mas a história estava contada. Mas, então, a relação da direção da revista Abril com os militares era difícil, como todos os casos das publicações e, no caso das revistas da Abril, da Realidade, eles mandavam para a censura. Não havia censor lá dentro. Mas havia uma espécie de intermediário entre a redação e a censura federal. Esse intermediário – um sujeito de dentro da editora nomeado para esse trabalho - era quem tentava botar uns panos quentes. Às vezes, ia e voltava com a matéria, que tinha que ser alterada.

CCMJ: Por que a Realidade acabou? 
Dantas: Essa pergunta, todo mundo faz. Mas quando digo que a Realidade morreu com 400 e tantos mil exemplares, aí foi uma decisão empresarial. Do ponto de vista capitalista, o capital empregado, o retorno. Do ponto de vista deles, o investimento não dá o retorno, talvez, sei lá, podia até estar dando prejuízo. E havia uma tendência em publicações segmentadas, já começava haver para vários assuntos, temas, dinheiro, jardinagem, enfim, um monte de coisa desse tipo. Acho que a Realidade desapareceu do ponto de  vista industrial. Ela  não resistiu. Acho que foi por aí. Várias tentativas de fazer uma revista como essa esbarram exatamente na questão do investimento. Não adianta dizer: Vamos fazer uma grande revista de reportagem se você não investe em reportagem (...)


Fonte: CCMJ - Centro de Cultura e Memória do Jornalismo

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